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domingo, 3 de setembro de 2017

3 de setembro - São Pio X, Papa e confessor

Neste dia da Festa Litúrgica de São Pio X, não poderíamos deixar de falar 
deste grande Papa que lutou contra o modernismo infiltrado na Igreja,
que não poupou esforços para destruir esta heresia perniciosa.
Roguemos a São Pio X que interceda pela Santa Igreja!




Pio X, que a Igreja Católica, pela voz de Sua Santidade o Papa Pio XII, proclamou Santo, é o 78º Papa que a  Igreja incluiu no catálogo dos Santos.  


   Transcorridos os 11 dias de orações, prescritos para sufrágio da alma do Papa Leão XIII, recém-falecido, os cardeais da Santa Igreja (em número de 62, na época) iniciaram o Conclave — reunião do Colégio cardinalício com o objetivo de eleger o novo Papa.

Os primeiros escrutínios indicavam a escolha do Cardeal Rampolla — que fora colaborador direto de Leão XIII. Mas no dia 1º de agosto foi comunicado aos cardeais, no Conclave, o veto do Imperador da Áustria, Francisco José. Veto que, segundo uma tradição, poderia ser exercido pelo Imperador austríaco.

Devido a isso, o Cardeal Giuseppe Sarto, de Veneza, passou a ser o preferido. Entretanto, num exercício de autêntica humildade, pedia aos cardeais que nele não votassem. Mas ele era o escolhido também pela Divina Providência. No sétimo turno da votação, o Cardeal Sarto, por insistência de vários de seus pares no Sacro Colégio, acabou aceitando(1) e foi eleito o 259º sucessor de São Pedro, por 50 votos a seu favor, no dia 4 de agosto de 1903.

 O Cardeal Sarto, de cabeça baixa, ouviu o resultado do sufrágio. Segundo o costume, aproximou-se dele o Cardeal Decano e perguntou-lhe se aceitaria ou não a eleição à Sede Pontifícia.

Com os olhos banhados em lágrimas, e a exemplo de Nosso Senhor Jesus Cristo, respondeu: “Se não for possível afastar de mim esse cálice, que se faça a vontade de Deus. Aceito o Pontificado como uma cruz”.(2)

Após cinco dias, teve lugar a grandiosa cerimônia de coroação do sucessor de São Pedro, para a glória da Santa Igreja. 


   Giuseppe Melchior Sarto nasceu em Riese (Treviso) - hoje chamada Riese Pio X - no norte da Itália, em dois de Junho de 1835, de João Batista Sarto (um funcionário da prefeitura) e de Margarida Sanson (costureira), o segundo de dez filhos. Tinha 23 anos quando foi ordenado sacerdote (18 de setembro de 1858). Por 9 anos, foi capelão em Tombolo. Foi também vigário de Salzano, passando ali 9 anos. Por outros 9 anos, foi cônego e diretor espiritual em Treviso. Outros 9 anos, ele os viveu como Bispo de Mântua (16 de novembro de 1884) e outros 9 (15 junho de 1893) como Patriarca de Veneza.

Foi eleito Papa em 1903, ocupando o lugar de Leão XIII. Mesmo sendo Papa, Pio X quis permanecer pobre e manter a simplicidade de vida, a bondade, que herdara de seus pais.

Pio X tinha como lema de pontificado "INSTAURARE OMNIA IN CHRISTO" (restaurar todas as coisas em Cristo).

O conclave que terminou com a sua eleição foi o último no qual um Cardeal usou do direito de “Veto” em nome de uma potência estrangeira, pois, uma vez eleito, Pio X decretou a “excomunhão maior” contra todos que, no futuro “ousassem formular um veto no Conclave ou contribuíssem para fazê-lo. 

Reconhecendo que a renovação dos homens dependia da vida santa do Clero, dedicou especial empenho aos Sacerdotes e Seminários, exortando os Ministros do Altar a se distinguirem pela piedade, ciência e obediência.

Preocupado ao máximo com a salvação eterna das almas, providenciou que fosse devidamente ensinado às crianças e adultos o Catecismo, elaborando ele mesmo um novo texto (vide in fine); estabeleceu sábias normas para a pregação; introduziu o uso da Comunhão frequente e até quotidiana; e estabeleceu que as crianças se aproximassem da Primeira Comunhão desde os mais tenros anos.

Mestre infalível da verdade, na memorável Encíclica “Pascendi” denunciou e reprimiu com o necessário rigor as doutrinas que formavam uma triste síntese de todos os erros: o modernismo. 

Trabalhou na codificação do Direito Canônico, reunindo em um só texto as disposições jurídicas da Igreja proclamadas através dos séculos. Procedeu à revisão da “Vulgata”, isto é do texto oficial da Bíblia, confiando o trabalho aos Beneditinos. Reformou a Cúria Romana, modernizando a organização que Sixto V tinha dado aos Dicastérios e aos Tribunais Eclesiásticos. Criou o Instituto Bíblico, reformou o Breviário e orientou a música sacra para formas de expressão mais puras. 

Para defesa da Religião restaurou a Ação Católica e deu novo desenvolvimento à ação social dos católicos e às associações operárias, e reforçou as Ordens Religiosas com oportunas normas jurídicas.

Em 1º de setembro de 1910, Sua Santidade, através do motu proprio Sacrorum Antistitum, promulgou o famoso Juramento Anti-modernista, a ser proferido obrigatoriamente por todos os padres, bispos, catequistas e seminaristas;  juramento este abolido por Paulo VI, em 1967: 

Eu, N., firmemente aceito e creio em todas e em cada uma das verdades definidas, afirmadas e declaradas pelo magistério infalível da Igreja, sobretudo aqueles princípios doutrinais que contradizem diretamente os erros do tempo presente.

Primeiro: creio que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza e pode também ser demonstrado, com as luzes da razão natural, nas obras por Ele realizadas (Cf. Rm I 20), isto é, nas criaturas visíveis, como [se conhece] a causa pelos seus efeitos.

Segundo: admito e reconheço as provas exteriores da revelação, isto é, as intervenções divinas, e sobretudo os milagres e as profecias, como sinais certíssimos da origem sobrenatural da razão cristã, e as considero perfeitamente adequadas a todos os homens de todos os tempos, inclusive aquele no qual vivemos.

Terceiro: com a mesma firme fé creio que a Igreja, guardiã e mestra da palavra revelada, foi instituída imediatamente e diretamente pelo próprio Cristo verdadeiro e histórico, enquanto vivia entre nós, e que foi edificada sobre Pedro, chefe da hierarquia eclesiástica, e sobre os seus sucessores através dos séculos.

Quarto: acolho sinceramente a doutrina da fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo, e rejeito totalmente a fantasiosa heresia da evolução dos dogmas de um significado a outro, diferente daquele que a Igreja professava primeiro; condeno semelhantemente todo erro que pretenda substituir o depósito divino confiado por Cristo à Igreja, para que o guardasse fielmente, por uma hipótese filosófica ou uma criação da consciência que se tivesse ido formando lentamente mediante esforços humanos e contínuo aperfeiçoamento, com um progresso indefinido.

Quinto: estou absolutamente convencido e sinceramente declaro que a fé não é um cego sentimento religioso que emerge da obscuridade do subconsciente por impulso do coração e inclinação da vontade moralmente educada, mas um verdadeiro assentimento do intelecto a uma verdade recebida de fora pela pregação, pelo qual, confiantes na sua autoridade supremamente veraz, nós cremos tudo aquilo que, pessoalmente, Deus, criador e senhor nosso, disse, atestou e revelou.

Submeto-me também com o devido respeito, e de todo o coração adiro a todas as condenações, declarações e prescrições da encíclina Pascendi e do decreto Lamentabili, particularmente acerca da dita história dos dogmas.

Reprovo outrossim o erro de quem sustenta que a fé proposta pela Igreja pode ser contrária à história, e que os dogmas católicos, no sentido que hoje lhes é atribuído, são inconciliáveis com as reais origens da razão cristã.

Desaprovo também e rejeito a opinião de quem pensa que o homem cristão mais instruído se reveste da dupla personalidade do crente e do histórico, como se ao histórico fosse lícito defender teses que contradizem a fé o crente ou fixar premissas das quais se conclui que os dogmas são falsos ou dúbios, desde que não sejam positivamente negados.

Condeno igualmente aquele sistema de julgar e de interpretar a sagrada Escritura que, desdenhando a tradição da Igreja, a analogia da fé e as normas da Sé apostólica, recorre ao método dos racionalistas e com desenvoltura não menos que audácia, aplica a crítica textual como regra única e suprema.

Refuto ainda a sentença de quem sustenta que o ensinamento de disciplinas histórico-teológicas ou quem delas trata por escrito deve inicialmente prescindir de qualquer idéia pré-concebida, seja quanto à origem sobrenatural da tradição católica, seja quanto à ajuda prometida por Deus para a perene salvaguarda de cada uma das verdades reveladas, e então interpretar os textos patrísticos somente sobre as bases científicas, expulsando toda autoridade religiosa, e com a mesma autonomia crítica admitida para o exame de qualquer outro documento profano.

Declaro-me enfim totalmente alheio a todos os erros dos modernistas, segundo os quais na sagrada tradição não há nada de divino ou, pior ainda, admitem-no, mas em sentido panteísta, reduzindo-o a um evento pura e simplesmente análogo àqueles ocorridos na história, pelos quais os homens com o próprio empenho, habilidade e engenho prolongam nas eras posteriores a escola inaugurada por Cristo e pelos apóstolos.

Mantenho, portanto, e até o último suspiro manterei a fé dos pais no carisma certo da verdade, que esteve, está e sempre estará na sucessão do episcopado aos apóstolos¹, não para que se assuma aquilo que pareça melhor e mais consoante à cultura própria e particular de cada época, mas para que a veradde absoluta e imutável, pregada no princípio pelos apóstolos, não seja jamais crida de modo diferente nem entendida de outro modo².

Empenho-me em observar tudo isso fielmente, integralmente e sinceramente, e em guardá-lo inviolavelmente, sem jamais disso me separar nem no ensinamento nem em gênero algum de discursos ou de escritos. Assim prometo, assim juro, assim me ajudem Deus e esses santos Evangelhos de Deus. (Vide em latim.)



Muito embora penetrado da consciência da autoridade pontifícia, Pio X levou uma vida de simplicidade extrema. Quis que os membros de sua família e especialmente suas irmãs fizessem o mesmo, e nunca lhes permitiu viverem junto dele, no Vaticano. Brando e afável, soube conquistar o afeto das multidões de fiéis. 

A sua morte foi atribuída à dor pela notícia da Primeira Guerra Mundial, cujo impacto o deixou profundamente perturbado. Começou a sentir-se mal a 15 de agosto, desse mesmo ano, vindo a falecer santamente logo depois, dia 20 de agosto.

O renome de santidade de Giuseppe Sarto começou a correr logo após seu falecimento. Não se tardou em falar de milagres devidos à sua intervenção. Em 1923, os Cardeais residentes em Roma se reuniram em comissão a fim de promoverem sua Beatificação.

O processo registrou rápidos progressos, e a Beatificação se deu a 3 de julho de 1951. Três anos depois, terminava a causa da Canonização e, finalmente, Sua Santidade Pio XII proclamou Santo da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica e Romana. “O Papa do Santíssimo Sacramento”, o Papa da bondade e da doçura.

Dizia dele, o Cardeal Merry del Val:
“Seria um grande erro crer que esta característica [a bondade] tão atraente de Pio X o retratasse plenamente ou resumisse seus dotes e qualidades; nada mais longe da verdade. Ao lado dessa bondade, e de modo feliz combinada com a ternura de seu coração paternal, possuía uma indomável energia de caráter e uma força de vontade que podiam testemunhar, sem vacilação, os que realmente o conheceram, embora em mais de uma ocasião surpreendesse, e até causasse estranheza àqueles que somente haviam tido ocasião de experimentar sua delicadeza e reserva habituais.

Mantinha um absoluto senhorio de si e dominava os impulsos de seu ardente temperamento. Não vacilava em ceder em assuntos que não considerava essenciais, e até estava disposto a considerar e aceitar a opinião de outros se isso não implicasse em risco para algum princípio; mas não havia nele nenhuma debilidade.

Quando surgia alguma questão na qual se fazia necessário definir e manter os direitos e liberdade da Igreja, quando a pureza e integridade da verdade católica requeriam afirmação e defesa, ou era preciso sustentar a disciplina eclesiástica contra o relaxamento ou influência mundanas, Pio X revelava então toda a força e energia de seu caráter e o intrépido valor de um grande Pontífice consciente da responsabilidade de seu sagrado ministério e dos deveres que julgava ter que cumprir a todo custo.

Era inútil, em tais ocasiões, que alguém tratasse de dobrar sua constância; toda tentativa de intimidá-lo com ameaças, ou de afagá-lo com sedutores pretextos ou recursos meramente sentimentais, estava condenada ao fracasso”. (Cardeal Rafael Merry del Val, Memorias del Papa Pio X, Sociedad de Educación Atenas, S.A., Madrid, 1946, pp. 103-105.)

Em seu sepulcro está escrito: - Pio X, pobre e rico, suave e humilde, de coração forte, lutador em prol dos direitos da Igreja, esforçado na tarefa de restaurar em Cristo todas as coisas. 

Bendito sejais Deus, Senhor do céu e da terra, que nos destes a graça do papado e um tão grande intercessor como São Pio X. Concedei-nos, Senhor, pela intercessão de tão insigne santo, a graça da paz para toda a Igreja de Cristo e para todos os seus membros e fiéis. Amém.

* * *

ORAÇÃO A SÃO PIO X
de Papa Pio XII


"Sim, ó Santo Pio X, glória do sacerdócio, esplendor e decoro do povo cristão! Tu, em quem a humildade pareceu irmanar-se com a grandeza, a austeridade com a mansidão, a simples piedade com a profunda doutrina; Tu, Pontífice da Eucaristia e do Catecismo, da Fé íntegra e da firmeza impávida, volve teu olhar sobre a Santa Igreja que tanto amaste e à qual dedicaste o melhor dos tesouros que com mão pródiga havia depositado a divina Bondade em teu ânimo; consegui-lhe a incolumidade e a constância no meio das dificuldades e perseguições de nossos tempos; alivia a esta pobre Humanidade cujas dores te afligiram tão profundamente que apagaram as palpitações de teu grande coração; faça que neste agitado mundo triunfe aquela paz que supõe a harmonia entre as Nações, o acordo fraterno e a sincera colaboração entre as classes sociais, o amor à caridade entre os homens, a fim de que, desse modo, aqueles desejos que consumiram tua vida apostólica cristalizem, graças à tua intercessão, em uma realidade feliz, para a glória de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, com o Pai e o Espírito Santo, vive e reina pelos séculos dos séculos. Assim seja". 

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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Vida de São Pio X descrita pelo Papa Pio XII


BREVE APOSTÓLICO DA BEATIFICAÇÃO


   1- Porque "Cristo amo a Igreja e se entregou a si mesmo para a santificar" (Ef V, 25), nunca faltaram nem poderão faltar, entre os fiéis, os que se avantajem aos outros em virtude, de modo que os seus exemplos sejam propostos à imitação. Por isso em todos os tempos, uma nobilíssima falange de Santos e de Bem-aventurados, ingente multidão "que ninguém pode contar, de todas as nações e tribos e línguas" (Apoc VII, 9), homens e mulheres de todas as idades e condições, não cessarão de acrescer a beleza e multiplicar a alegria da Esposa de Cristo, até à consumação dos séculos.

2- A esta fulgidíssima falange até a nós, que, embora sem méritos, estamos ao leme da barca de Pedro em tempos tão procelosos, concedeu o benigníssimo Senhor que, especialmente no passado Ano Santo, acrescentássemos muitos ilustres heróis, cujo triunfo celebramos com grande alegria do nosso espírito. Mas aprouve a suavíssima clemência de Deus conceder hoje ao Vigário de Cristo na terra uma graça que, há mais de dois séculos, isto é, desde o ano de 1712 em que Pio V foi inscrito no cânone dos Santos por Clemente XI, não foi concedida a nenhum dos Nossos Predecessores: poder agregar ao número dos Bem-aventurados outro Sumo Pontífice, um Pontífice que nós próprio conhecemos, cujas exímias virtudes admiramos de perto, ao qual prestamos dedicada e devotamente a nossa colaboração - Pio X.

3- Nasceu ele na humilde aldeia de Riese, na diocese de Treviso, a 2 de junho de 1835, filho de João Batista Sarto e Margarida Sanson, ambos de condição humilde mas ilustres pela honestidade e virtude antiga, aos quais Deus circundou de uma coroa de dez filhos. Batizado no dia seguinte, recebeu o nome de José Melchior. Menino de índole vivaz e alegre, sob a direção da sua piedosíssima mãe distinguiu-se de tal modo na piedade que o pároco da freguesia não duvidou proclamá-lo "a mais nobre alma" da paróquia. Depois de completar os estudos elementares na escola local, levado pelo seu grande desejo de estudar mais, freqüentou os estudos secundários, dirigindo-se para isso todos os dias, durante quatro anos, muitas vezes de pés descalços, à próxima povoação de Castelfranco. Recebeu o Sacramento da Confirmação em 1º de setembro de 1845 e fez a Primeira Comunhão em 6 de abril de 1847 e, como mostrasse constante vontade de abraçar o estado eclesiástico, em setembro de 1850 mereceu ver satisfeito o seu ardente desejo de receber as vestes talares e em novembro seguinte, mercê do interesse do Cardeal Tiago Mônico, Patriarca de Veneza e seu patrício, entrou, radiante de alegria, no prestigioso Seminário de Pádua. Quanto aí progrediu em piedade e doutrina pode facilmente deduzir-se do seguinte testemunho dos superiores daquele Seminário: "a nenhum inferior em disciplina, de grandíssima inteligência, de suma memória, de máxima esperança" ( Arquivo do Seminário de Pádua). Os fatos confirmaram plenamente a previsão. Ordenado sacerdote na igreja principal de Castelfranco em 18 de setembro de 1858, alguns dias depois celebrou solenemente a Missa-Nova na terra natal, em meio da maior alegria dos seus, sobretudo da sua digníssima mãe, bem como de todos os conterrâneos. No mês de novembro de 1858 foi nomeado coadjutor do piodoso pároco de Tômbolo, cuja saúde era bastante precária. Imediatamente aquele venerando sacerdote e os paroquianos, quase todos agricultores, experimentaram e admiraram os egrégios dotes do jovem coadjutor, a sua humildade, pobreza, jovialidade, zelo assíduo em auxiliar de todos os modos o próximo e, além disso, a sua invulgar perícia na pregação. O Bispo de Treviso, ao conhecer estas excelentes qualidades, em 1867 escolheu José Sarto para reger a paróquia mais importante de Salzano. E aí se revelou cada vez mais em quanto amor de Deus e do próximo ele se distinguia pela suavidade de caráter, mansidão, modéstia, amor da pobreza, especialmente durante a terrível peste do ano de 1873.

4- Passados nove anos em Salzano, foi nomeado Cônego da Catedral de Treviso, Chanceler da Cúria Episcopal e ainda Diretor espiritual do Seminário. Estes cargos tão honrosos como cheios de responsabilidade, e só aceitos por obediência, pois detestava honrarias e dignidades, exerceu-os com a costumada diligência e perícia, ele que sempre foi inimigo declarado da ociosidade. Em 1879, ficando vaga a Sé de Treviso, foi eleito por unanimidade de sufrágios Vigário Capitular. E também neste ofício deu tais provas de prudência e competência que, em 1884, com aplauso universal, embora contra sua própria vontade e vã relutância, foi nomeado Bispo de Mântua.

5- Sagrado nesta cidade de Roma, na igreja de Santo Apolinário, a 16 de novembro, entrou na diocese em abril do ano seguinte, para logo começar a difundir com maior profusão os tesouros de generosidade da sua alma a favor do novo rebanho místico confiado aos seus cuidados,"fazendo-se tudo para todos"(1 Cor IX, 22), a fim de conquistar a todos para Cristo e prover às muitas e graves necessidades da Igreja Mantuana. Deve recordar-se, antes de mais, o seu ardentíssimo xelo para que os Seminaristas, como o requeriam os tempos e as circunstâncias, fossem convenientemente educados, para que as associações católicas fossem verdedeiramente ativas e fosse acrescido o decoro  da Sagrada Liturgia. Desde então, desapareceram desconfianças e inimizades, arrrancaram-se vícios muito inveterados, suprimiram-se escândalos, restaurou-se o cumprimento dos mandamentos de Deus, cresceu maravilhosamente a fé, reforçou-se a honestidade dos costumes. Que admira, pois, que entre os Mantuanos o Bispo José Sarto gozasse fama da santidade, ele que, movido unicamente pela ardentíssima caridade cristã,costumava não só distribuir aos numerosíssimos pobres dinheiro, alimentos e vestuário, mas até beijar-lhes de joelhos os pés?

6- Leão XIII, de gloriosa memória, que tinha grande estima e singular afeto ao Bispo de Mântua, no Consistório de 12 de junho de 1893 alistou-o entre os Cardeais e, três dias depois, nomeiou-o Patriarca de importante Igreja de São Marcos de Veneza, a fim de que se visse claramente que a honra da Púrpura Cardinalícia, mais do que a Sé, embora digníssima, se conferia ao homem de méritos excepcionais.

7- A maravilhosa cidade, Rainha do Adriático, que há tanto esperava um novo Patriarca, recebeu-o com enorme júbilo e universal aplauso em 24 de novembro de 1894, e logo os venezianos de todas as condições foram conquistados pela sua afabilidade e virtude. Realmente, excetuadas as vestes e os distintivos próprios da dignidade cardinalícia, nada mudou na vida íntima  e nos usos do Servo de Deus. A mesma humildade e desprezo de si próprio, o mesmo amor à pobreza e ao trabalho, o mesmo ardentíssimo e constante zelo pela glória de Deus e salvação das almas.

8- Como em Mântua, assim em Veneza se preocupou antes de mais com restaurar a disciplina e promover a santidade do Clero, renovar e fomentar a piedade do povo e a prática das virtudes cristãs, restaurar a dignidade das sagradas cerimônias e do canto eclesiástico, reformar os costumes, abolir abusos, reivindicar com suavidade e fortaleza os direitos da Igreja.

9- Falecido Leão XIII em 1903, o cardeal José Sarto, a 4 de agosto do mesmo ano, foi elevado ao fastígio do Sumo Pontificado que aceitou, com relutância e com lágrimas, "como uma cruz", tomando o nome de Pio X. Estabelecido na Cadeira de São Pedro, vendo o que exigia o bem da Religião e o que reclamavam os tempos, tomou como lema do seu pontificado esta sublime e insigne divisa: instaurare omnia in Christo. O Servo de Deus, tendo experimentado que nada poderia contribuir mais eficazmente para a renovação dos homens em Cristo do que a vida do Clero, esforçou-se com particular empenho por que todos os chamados para o serviço do Senhor se distinguissem pela piedade, ciência e obediência.

10- Por isso é que na primeira Carta Encíclica "E supremi" quis abrir a sua alma ao Clero, exortando-o vivamente a só se compenetrar das coisas celestes e só a estas procurar. Volvendo particulares cuidados para os Seminários da Itália, deu-lhes nova organização e favoreceu neles muitíssimo o estudo das ciências sagradas e profanas; excitou os cultores da filosofia cristã a pugnarem pela verdade tomando por guia Santo Tomás de Aquino; erigiu em Roma o Instituto Bíblico e, por ocasião de seu cinqüentenário sacerdotal, numa suavíssima exortação, estimulou todo o Clero a observar diligentemente os deveres do próprio ministério. Mandou reunir as leis da Igreja, até então dispersas por muitos volumes, em um corpo adaptado às condições do tempo e reorganizou a Cúria Romana para que se tornasse mais rápido o expediente dos serviços.

11- Preocupado ao máximo com a eterna salvação das almas, providenciou para que fosse devidamente ensinado o catecismo às crianças e adultos; estabeleceu sábias normas para a pregação; ordenou que a música sacra se conformasse com a majestade das sagradas funções. Fautor da santidade e da inocência, inspiriado pelo amor divino, introduziu o uso da Comunhão freqüente e até cotidiana e estabeleceu que as crianças se aproximassem da Primeira Comunhão desde os mais tenros anos; além disso, alimentou a acendeu em todos os filhos da Igreja maior amor ao Santíssimo Sacramento da Eucaristia. Mestre infalível da fé, na memorável Encíclica "Pascendi" denunciou e reprimiu com o necessário rigor doutrinas que formavam uma triste síntese de todos os erros.

12- Acérrimo defensor da Religião e fortíssimo guarda da liberdade da Igreja de Cristo, cônscio do seu ofício pastoral, aboliu o chamado Veto civil na eleição do Pontífice Romano; repudiou impavidamente as leis da separação do Estado da Igreja; à França afligida pela perseguição, deu novos Bispos, e resistiu à audaciosa erupção da malícia dos homens. Para defesa da Religião, restaurou a disciplina da Ação Católica e tornou-a mais sólida; deu novo desenvolvimento à ação social dos católicos: conduziu com sapientíssimas leis as associações operárias para o caminho religioso; reforçou as Ordens Religiosas com mais oportunas normas jurídicas.

13- A fim de promover e preservar a fé cristã, erigiu em Roma novas paróquias e fomentou por todas as formas a vida paroquial; proveu às múltiplas necessidades das Dioceses; difundiu no mundo a palavra de Deus com a missão de arautos do Evangelho; empregou todos os esforços para reconduzir à unidade da Igreja os Orientais dissidentes e, como verdadeiro Pai amantíssimo dos pobres e dos órfãos, nunca deixou de atender a quaisquer desgraças do seu povo.

14- Não vencido pelo trabalho, mas esmagado de acerbíssima dor por causa da infeliz e cruel guerra européia declarada nesses dias, começou a sentir-se mal em 15 de agosto de 1914 e, tendo-se agravado rapidamente a doença, no dia 19 chegou ao extremo. Confortado com todos os Sacramentos da Igreja, a 20 do mesmo mês trocou placidamente a vida mortal pela eterna, chorado por todo o mundo católico e logo proclamado Santo, como a primeira e a mais nobre vítima da guerra que já alastrava com furor. Celebradas solenes exéquias na Basílica de São Pedro a 23 de agosto, foi sepultado nas Grutas Vaticanas, no lugar que em vida tinha escolhido para o seu túmulo. O povo católico considerava-o imediatamente, à conta das exímias virtudes que lhe tinham adornado a vida, como intercessor junto da Majestade Divina.


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